Miguel Duarte

 
 

Entrevista a Miguel Bruno Duarte

 

Lino Mendes - Quem é Miguel Bruno Duarte?

Miguel Bruno Duarte - Tenho, por via materna, raízes avoengas na terra de Montargil. Refiro-me, mais particularmente, a Manuel Nogueira Lopes e Lídia Pimenta Matono, que deixaram dois filhos: João Maria Nogueira Lopes e Maria Amélia Nogueira Lopes Duarte. No que toca ao meu pai, João Alberto da Silva Duarte, as raízes são de origem Olisiponense, nomeadamente de Eduardo Maia Duarte e Maria Ângela Marques da Silva Duarte.

L. M. - Qual a sua relação com a filosofia, e quando e como se deu esse encontro?

M. B. D. - A relação com a filosofia deu-se por portas travessas, isto é, veio por via das artes marciais quando, no Salão Paroquial de Montargil, junto à Igreja matriz de Santo Ildefonso, pude ver o primeiro filme protagonizado por Bruce Lee, intitulado The Big Boss (1971). Ora, fora precisamente através de Lee Siu Loong («O Pequeno Dragão») – o nome artístico de Bruce Lee em virtude de ter participado, quando ainda criança, numa vintena de filmes melodramáticos em Hong Kong – que comecei, a par do combate propriamente dito, a interessar-me pela história do Extremo Oriente e pelas raízes espirituais que explicam a transição da sabedoria marcial e religiosa da China para as três principais cidades de Okinawa: Shuri, Naha e Tomari. E, de resto, um tal interesse também se explica pelo facto de eu ter sido iniciado no Karaté que não é, como geralmente se julga, de origem japonesa, mas, sim, proveniente de Okinawa que fora antigamente um reino independente com uma cultura própria diferenciada do Japão.

Iniciei-me, pois, num dos vários estilos de Karaté oriundos de Okinawa, designado por Shito-Ryu, sob a mestria única e incomparável de Elmano Jorge Caleiro. Aliás, no momento em que conheci tão invulgar personalidade – corria o ano de 1986 –, já Elmano Caleiro houvera prestado serviço militar como oficial da 7ª Companhia de Comandos em Angola e Moçambique (1964-1968), após o que pudera estagiar Karaté Shukokai em Salisbury com Sensei Shigeru Kimura para, em 1974, operar a transição do Shito-Ryu/Shukokai para Lisboa e tornar-se assim num dos mais reputados pioneiros do Karaté em Portugal. Neste âmbito, a respectiva prática era um tanto oriental, isto é, treina muito, refreia a língua e arreia ou enfarda consoante o teu talento, dons e capacidades físicas e mentais.

Por vezes, acontecia vir alguém ao dojo («lugar de treino») de Elmano Caleiro para perguntar o que era preciso fazer para obter um cinto, ou chegar a cinto preto, para a resposta vir logo curta e incisiva: «A primeira coisa a fazer é levares o primeiro estalo. Depois, o resto é sempre a andar». E das duas uma: ou aprendia a sério a exercitar-se no Karaté ou retornava à sua vidinha burguesa depois de experienciar e fazer uma ideia, ainda que vaga, sobre a diferença que existe entre a fantasia e a realidade nua e crua.

Tal não significa que o Karaté implique a apologia da violência, pese embora esta, quer se goste ou não, faça parte do mundo em que vivemos e sempre viveremos. O Karaté, muito pelo contrário, proporciona uma óptima escola para, em situações de dificuldade extrema, formar espíritos vigorosos e capazes de se adaptarem às mais imprevisíveis circunstâncias do dia-a-dia. Aliás, foi assim que o Karaté se praticou na Europa e nos Estados Unidos durante os anos 60 e 70 do passado século, perdendo posteriormente a sua fisionomia marcial para dar lugar ao domínio da competição meramente lúdica e desportiva.

Entretanto, também conheci no ensino médio um professor da suposta «disciplina de Filosofia» chamado Luís Furtado, que era tudo menos um professor no sentido comum da palavra, pois evitava seguir todo e qualquer programa de ensino imposto pelo Estado, embora o cumprisse dentro de critérios que lhe permitissem transmitir o mínimo do que mais importa no âmbito da cultura e da filosofia clássicas. Contudo, foi na esfera extra-curricular que recebi os primeiros ensinamentos filosóficos propriamente ditos, mas não sem antes percorrer domínios que me interessavam particularmente, como o ocultismo, o espiritismo, a teosofia e tudo o que, directa ou indirectamente, se relacionava com as multímodas correntes esotéricas de raiz oriental e ocidental.

L. M. - Que corrente ou doutrina filosófica prefere ou adopta no seu percurso pessoal?

M. B. D. - Não tenho propriamente uma corrente ou uma doutrina que me possa catalogar, classificar ou rotular. Mas posso dizer que na base de todo o meu pensamento está, por um lado, a cultura greco-romana e, por outro, o culto, a cultura e a civilização portuguesa de raiz predominantemente aristotélica. De resto, não foi por acaso que um ilustre professor, chamado Delfim Santos, tenha dito que «Aristóteles é o pensador sempre presente em todos os momentos da especulação nacional».

L. M. - Considero que escrever é comunicar e, portanto, procurar que uma mensagem seja devidamente compreendida. Não se deverá por isso usar a mais simples das linguagens, tipo António Aleixo? Ou a qualidade do escritor avalia-se pela dificuldade da sua escrita?

M. B. D. - Bem, quanto a mim, a qualidade de um escritor pode ser encarada pela altura e profundidade das suas ideias. Há por exemplo escritores acessíveis em termos de linguagem, embora superficiais no conteúdo, senão mesmo vazios de pensamento. E há, por outro, autores elípticos e bruninos, de difícil leitura, mas impregnados de abundosa e farta seiva, e, como tal, espiritualmente enriquecedores.

O caso de António Aleixo é o caso de um poeta popular em que a simplicidade e a espontaneidade não só transitam frequentemente pela ironia como por uma moralidade eivada de crítica social. O autor reflecte, pois, em muitos aspectos, o estado de miséria e de pobreza da sua existência atormentada, a ponto de infundir na sua poesia questões prementes da sociedade do seu tempo. No entanto, há sempre um íntimo pessoal que muitas vezes se deixa ensombrar por essa entidade totalitária que é a sociedade, tal como, compreensivamente, nos deixa perceber Mestre Almada Negreiros num trecho extraído de Nome de Guerra:

«Cada um tem o destino universal de fazer consigo mesmo o modelo de mais uma estátua humana. E esta fabrica-se apenas com íntimo pessoal.

O nosso íntimo pessoal é inatingível por outrem. E é este o fundamento de toda a humanidade, de toda a Arte e de toda a Religião. O nosso íntimo pessoal é de ordem humana, estética e sagrada. Serve apenas o próprio. É o seu único caminho. O melhor que se pode fazer em favor de qualquer é ajudá-lo a entregar-se a si mesmo. Com o seu íntimo pessoal cada um poderá estar em toda a parte, sejam quais forem as condições sociais, as mais favoráveis e as mais adversas. Sem ele, nem para fazer número se aproveita alguém.

A individualidade e a personalidade são florescências desse invisível do nosso ser a que chamamos o nosso íntimo. Tudo quanto de bom ou de mau, de óptimo ou de péssimo exista em cada qual nasceu com ele e formou-se secretamente, intimamente, a despeito de todo o aspecto que lhe venha do exterior, de toda a educação e acção alheias.

O papel da sociedade é imediatamente mais evidente sobre cada pessoa do que o atropelado movimento das gerações que a antecederam e lhe determinaram o seu sangue, mas aquela não vale esta. Que uma pessoa tome a seu cargo dirigir o próprio destino que lhe coube, é com ela. Que seja a sociedade quem se proponha dirigi-lo, é ingenuidade. O mais que neste caso poderá a sociedade é eliminar esse destino pessoal. A sociedade só tem que ver com todos, não tem nada que cheirar com cada um!

Cada um nasce já bem ou mal educado. E depois de nascido bem ou mal educado, tudo quanto se faça pode pouco para imediatamente. Vereis gentes humildes, analfabetos, simples e perfeitamente bem educados, sabendo medir as distâncias entre pessoas, sem se atrapalharem com as escalas sociais e perfeitamente uníssonos com o seu próprio caso pessoal. Vereis, por outra, gentes de opinião, passados superiormente por cursos, e, uma vez na altura oficial, não saberem distinguir pessoas de formigas, e outras vertigens dos sítios altos, e, o que é pior, de costas voltadas para si mesmos como para o diabo. Isto é, aquilo em que eles poderiam merecer o nosso interesse é precisamente ao que eles voltaram as costas!

O autor destas páginas também desenha e não sabe expressar por palavras a extraordinária impressão que recebe sempre que copia o perfil de qualquer pessoa. A natureza chega tão complexa às feições de cada um, que somos forçados a não poder aceitar cada qual resumido ao lugar em que a sociedade o põe. Através dos séculos, uma linha única e incessantemente seguida acabou por tornar inimitável o perfil de cada um. Essa linha passa agora desde o alto até por baixo do queixo, e às vezes lembra a de outros, mas é intransmissível».

L. M. - O que tem a dizer sobre o acordo ortográfico?

M. B. D. - A mim parece-me mais um desacordo generalizado à volta da língua portuguesa. Contudo, o processo de extinção da nossa língua já está em curso. Ou seja: Portugal, por decisão alheia resultante de fraqueza, traição e cobardia internas, não somente perdeu a sua independência política e a respectiva moeda enquanto instrumento de liberdade económica, como é agora praticamente a primeira nação da Europa a perder e a ver gráfica, fonética e semanticamente desfigurada a sua própria língua. E assim é porque a uniformização ortográfica, com a queda e supressão das consoantes mudas e dos acentos tónicos, leva ao abastardamento idiomático descaracterizador das nossas melhores expressões sintácticas, morfológicas e fonéticas que permitem ligar a língua portuguesa directamente ao grego, ao hebreu e ao árabe. Demais, acentua-se a perda do saber referente aos étimos e paradigmas latinos, assim como toda a capacidade descritiva e conceptiva susceptível da maior riqueza de vocábulos, fonemas e articulações entre todas as línguas do mundo.

Deste modo, a língua portuguesa já é praticamente uma língua morta, a avaliar pela imposição de uma «reforma ortográfica» nas escolas, universidades, meios de comunicação social, movimentos editoriais, o diabo. Enfim, a língua portuguesa tornou-se finalmente numa língua clássica a ser tão-só preservada por poetas e filósofos que não desistam de ser portugueses de corpo, alma e espírito.

L. M. - Que temas prefere para a sua escrita?

M. B. D. - Todos os que temos vindo a abordar.

L. M. - De há muito que a rima deixou de ser obrigatória na poesia, e na verdade há prosa verdadeiramente poética. Mas o que é poesia, onde a encontramos nos poemas sem rima?

M. B. D. - A poesia, já dizia Aristóteles, é imitação, havendo, portanto, várias espécies de poesia imitativa, como a epopeia, a tragédia, a comédia, etc. Essas espécies distinguem-se ou porque imitam por meios diversos, ou porque imitam objectos diversos, ou porque imitam de modos diversos. E se invoco Aristóteles para ir ao encontro da sua questão sobre a poesia, é porque melhor se compreende esta última na sua relação com a história, nomeadamente nos precisos termos em que a põe o maior filósofo grego da Antiguidade:

«(...) Com efeito, não diferem o historiador e o poeta, por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa) – diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta, o particular. Por “referir-se ao universal” entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e acções que, por liame de necessidade e verosimilhança, convêm a tal natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que dê nomes aos seus personagens; particular, pelo contrário, é o que fez Alcibíades ou o que lhe aconteceu» (in «Poética» de Aristóteles).

Por outras palavras, a rima, o ritmo, a harmonia, o canto e outros elementos afins, são apenas partes ou elementos essenciais que «ornamentam» a linguagem consoante as diferentes espécies poéticas adoptadas, realizadas ou configuradas em acto. A poesia é, por conseguinte, a imitação de alguma acção que se altera e padece de metamorfoses nas entrelinhas dos poemas que chegaram até nós, e assim guardam uma mensagem do passado que chega ao presente mediante a efectividade do tempo transfigurado. Em suma: a poesia é criação cujo milagre, mistério e revelação não podemos simplesmente surpreender nas partes ou elementos essenciais da mesma.

L. M. - Como define o actual momento da literatura portuguesa? E da adesão do leitor?

M. B. D. - Salvaguardando as devidas excepções, vejo-a como sintomática de motivações egoístas e condicionalismos sociais, para não dizer quase completamente destituída de acontecimentos de ordem sobrenatural, e, nesse sentido, destituída de verdadeiro talento e génio. Depois, quase tudo se reduz a dimensões estritamente humanas, elementares e comuns, em que imperam os críticos literários para quem a imaginação criadora e a transferência mental e simbólica no domínio do Espírito é simplesmente vista sob um prisma positivista, materialista, senão mesmo como obra de mera ficção. Quanto ao leitor, a questão não é, a meu ver, aderir ou deixar de aderir a uma suposta literatura portuguesa, mas antes saber como se pode ele orientar num meio onde predomina o gosto padronizado e colectivista sobre os fins superiores da vida humana singular e individuada.

L. M. - Só é escritor quem publica livros?

M. B. D. - Não necessariamente. Aliás, há até quem imagine que todo e qualquer intelectual tem de ser um homem que escreve livros. Contudo, o intelectual, à margem do sentido vulgar do termo, é só o homem que pensa.

L. M. - Que projecto sugere para Montargil no campo da literatura?

M. B. D. - Não sugiro nada porque não sou um literato, nem sequer um intelectual, embora cultive a arte de filosofar. Neste âmbito, posso realmente sugerir muita coisa caso haja interesse, visão e boa vontade.

L. M. - Já tem obra editada?

M. B. D. - Noemas de Filosofia Portuguesa é o título do livro que veio ainda agora a lume em Portugal pela editora Fonte da Palavra, já depois de ter sido editado no Brasil em 2013, a cargo da editora É Realizações. Trata-se de um estudo revelador de como a universidade é o maior inimigo da cultura lusíada, conforme se pode entrever pelo resumo que ora se segue:

No livro supracitado, aponto e descrevo a ideologia dominante no establishment universitário em Portugal. E, de facto, também dou a conhecer as repercussões dessa ideologia na cultura inculta das fundações, institutos e demais poderes institucionalizados. Concebida em duas partes – Queda Vertical e Esperança – a obra apresenta um diagnóstico que vai directo aos problemas, obstáculos e contradições do Portugal de hoje.

Na primeira parte, ponho a nu a planificação do ensino em Portugal, demonstro que a filosofia não é uma disciplina, um ramo ou uma área do saber, revelo como o Marquês de Pombal desferiu um golpe mortal na cultura portuguesa ao expulsar o Jesuíta a pontapé, e dou a conhecer a consequente infiltração do iluminismo, do positivismo e do socialismo na terra mais antifilosófica do planeta.

Na segunda parte, deposito a esperança em Aristóteles e na tradição portguesa, percorrendo, para o efeito, o aristotelismo de inspiração arábica de Pedro Hispano, o racionalismo meridional da neo-escolástica conimbricense e a arte de filosofar preconizada por Álvaro Ribeiro.

De resto, não me deixo intimidar perante o bem-pensantismo impensante dos intelectuais e propedeutas de cultura que não querem, não sabem e não podem estar à altura do pensamento superno. Deste modo, o leitor sentir-se-á em terreno desconhecido, embora simultaneamente condutor e indutor de um realismo espiritual que não se compraz com os habituais preconceitos, estereótipos e ideias feitas da cultura triunfante.

 

 

Feita a sinopse, convém notar que o livro em questão é o primeiro de um tríptico a que se segue Memória Lusa e O Poder da Percepção, já escritos e prontos a dar a lume caso haja editora capaz e interessada. Noemas de Filosofia Portuguesa também já se encontra à venda em Montargil (Rua do Comércio, n.º 19, Loja de Joaquim Vital [Falaia]), bem como na maior parte das livrarias do País. No mais, existe um blogue intitulado “Liceu Aristotélico” onde publico alguns escritos de minha autoria a par de textos de outros autores da cultura nacional-humana: http://liceu-aristotelico.blogspot.pt/

L. M. - E a terminar, uma mensagem...

M. B. D. - Faço minhas as palavras de D. Afonso Henriques que, segundo reza a lenda montargilense, teria respondido ao ferreiro Gil depois de este ter dobrado com as mãos uma moeda de ouro: “Montar, Gil!”.

 

miguel.-bd@hotmail.com